sexta-feira, setembro 21, 2007

Pode entrar, a casa é sua!

Um cidadão brasileiro, desempregado, doente, há quatro dias sem comer, portanto, desesperado, tenta invadir o Planalto para falar com o presidente Lula. No cumprimento de seus deveres, os seguranças o dominam, forçam-no a enterrar a cara no chão, algemam-no e o colocam para fora. É, está certo, o Palácio do Planalto não é terra de ninguém (embora o principal ocupante esteja sempre viajando) e não pode mesmo ser invadido. Imagine se Lula fosse receber todos os brasileiros famintos, desempregados e doentes. Ele não teria tempo para viajar!

O senhor Ângelo de Jesus tinha – e tem - todo o direito de querer falar com o presidente, assim como é totalmente compreensível o seu descontrole. O que é inadmissível é um cidadão chegar a este ponto. É inadmissível que um país rico como o nosso ainda tenha mais de 36 milhões de habitantes abaixo da linha da pobreza (19% da população - dados fresquinhos da Fundação Getúlio Vargas). Aqui, valem algumas informações: está abaixo da linha da pobreza quem recebe menos de US$ 1 por dia, o que dá R$56,10 por mês! Os beneficiários de programas assistenciais recebem mais do que isso e, portanto, não estão abaixo da linha da pobreza (embora vivam às minguas). Está explicado porque o Brasil tem tirado tanta gente do limite da pobreza nos últimos anos!

Enquanto o senhor Ângelo tentava desesperadamente falar com o presidente, Lula estava em Manaus com o amiguito Chávez. Entre umas e outras (prosas, não pingas... bem, talvez ambas), Lula ofereceu o nosso país como sede do encontro entre Chávez e as Farc para tratar da paz na Colômbia.

Como é? O Brasil pode ser palco para o encontro entre a Venezuela e os guerrilheiros para tratar de assuntos da Colômbia? E o “seo” Ângelo não pode entrar no Planalto para falar com Lula? Vamos ver se eu entendi direito: o banqueiro italiano, Salvatore Cacciola, pôde sair do Brasil enquanto era julgado pelo prejuízo de R$1,5 bilhão ao país; Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália pela morte de quatro pessoas em ataques terroristas, não foi extraditado, assim como seu patrício, Achille Lollo, do PSOL, condenado a 18 anos de prisão depois de incendiar uma casa, também na Itália, cujo incêndio queimou vivas duas pessoas (entre elas uma criança de oito anos), também pode ficar. E o senhor Ângelo não pode entrar no Planalto?

Você até pode pensar que estou misturando tudo, mas o fato é que existe uma profunda sensação de injustiça (pra variar) com relação a quem entra ou sai de qualquer lugar neste país. Quem vai preso, quem não vai. Quem é solto, quem não é. Quem foge, quem não foge. Quem pode entrar no Planalto e quem não pode.

Não podemos fazer nada para que todos os brasileiros necessitados tenham seu encontro com o presidente, assim como não podemos impedir que as Farc venham tratar, aqui, de assuntos da Colômbia com o presidente da Venezuela. Tenha paciência! Nossas portas estão escancaradas para guerrilheiros e terroristas, mas “seo” Ângelo não pode entrar no Palácio do Planalto!

Quem está com as “chávez” do Brasil, afinal?

Como sempre neste país, quem entra ou sai depende do que oferece em troca. Se o governo tem cargos públicos à disposição (e isso só aumenta no governo Lula), deputados aprovam a CPMF. Se Achille Lollo for companheiro de armas, pode ficar. Se tiver que pagar R$1,5 bilhão ao governo, pode voltar. Se financiou campanha política do PT, pode entrar pra negociar com Chávez a paz na Colômbia. Mas, se for um pobre coitado, doente e desempregado, fique onde está!

Viva a democracia!

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