quinta-feira, junho 01, 2006

Copa, cozinha e outras "bolas"

Hoje, meus filhos me disseram que estou muito "paranóica". Fiquei muda. "Será?", pensei eu....

Falávamos sobre a Copa (na cozinha), sobre o quanto eu detesto este momento de falso patriotismo. Falávamos do quanto está em jogo, além da bola e do título. Dos patrocínios e do quanto as pessoas ganham e perdem com a Copa. Para mim, a sociedade só perde. Tirando os fabricantes de televisão e o comércio em geral, a sociedade só perde quando os bancos mudam o horário de funcionamento, as repartições públicas fecham as portas duas horas antes dos jogos e assim por diante.

A sociedade só perde quando volta seus olhos para os gramados alemães enquanto outras "bolas" rolam soltas nos gramados do Congresso. Tentei dizer a eles que se o Brasil vencer ou perder qualquer jogo da Copa, ou o próprio título aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, minha vida continuará a mesma! Mas não adiantou, fiquei de paranóica mesmo. Aquela que não acredita em mais nada e está com o coração duro com a falta de esperança. Se não fosse meu marido dar uma mãozinha e explicar que cada fase tem sua visão da vida e que, antes, pensávamos como eles, assim como amanhã (muitos amanhãs, aliás) eles se lembrarão desta conversa e também pensarão como nós, a conversa teria terminado em dez a zero para eles.

Mas, enfim, é isso aí. Não gosto da Copa, de ver os brasileiros vestindo verde e amarelo - felizes da vida - enquanto deixam de se mobilizar contra a impunidade, a corrupção, a violência, a falta de investimento na educação, transporte e moradia. Brasileiro pára diante da TV para assistir aos jogos da Copa (mesmo que seja Togo x Trinidad e Tobago), mas nem prestaram atenção quando Delúbio, Silvinho, Duda Mendonça, José Dirceu ou Marcos Valério foram às CPIs.

Não gosto de ver os brasileiros ligados nos comentários esportivos, quando nem sabem qual o canal da TV Câmara ou Senado.

Não gosto de ver os brasileros ditando a escalação de Parreira, enquanto mal sabem o nome de meia dúzia dos quarenta da "organização criminosa".
Sim, não gosto da Copa e da falta de patriotismo real dos brasileiros. Entendo que o povo precise se divertir, se distrair um pouco, explodir diante de um gol, prender a respiração quando Baggio for marcar um pênalti (ué, o Baggio não é mais da seleção italiana?)... concordo com tudo isso mas, como diz meu pai, primeiro a obrigação, depois a diversão. Vamos fazer o dever de casa, pra depois relaxar no recreio.

Quando a Copa terminar, a campanha eleitoral já estará nas ruas e o Congresso de férias. Se o Brasil vencer, o brasileiro estará nas nuvens, acreditará em tudo o que vir e ouvir. Se perder, o mal humor reinará sobre as mesas de bar e nada fará o torcedor vestir a camisa do país ou parar diante da tv, muito menos para assistir aos programas eleitorais ou aos debates políticos. Portanto, a Copa, ainda por cima, levará o torcedor/eleitor a uma inércia política. Aliás, sejamos realistas, uma característica de grande parte deste povo que precisa da Copa para ter orgulho do seu país.

5 comentários:

Dila Pereira disse...

Confesso que estou no meio termo...
um pé aqui e outro lá.
Já não curto mais o futebol (meu Corínthians que o diga) da mesma maneira, nem mesmo quando é a Seleção Brasileira que entra em campo.
Tenho um sentimento de vazio..
Na Copa, no Futebol dos Clubes Paulistas, e na Política.
Uma sensação estranha de que há corrupção por todos os lados. Nos juízes de futebol tanto quanto nos no sistema Judiciário.
Ganha quem paga mais, tem melhor time quem tem "maior patrocinador".. é assim no futebol, na politica e na justiça.
É... de certa forma concordo com vc, Érika.. é um falso patriotismo.
Talvez eu não assista aos jogos, mas talvez fique feliz de saber que o nosso goleiro defendeu a nossa trave...
Tomara um dia, possamos realmente ficar feliz de ver "outros representantes" da nação brasileira nos defendendo também...
Por enquanto, parece tudo uma ilusão...

Aline Fallaci disse...

ÉriKa, concordo com tudo que vc escreveu. Confesso que já acompanhei Copas do Mundo com muita alegria até 1998, quando aquela final da França ficou mal contada. Depois disso, minha descrença é total. Na verdade, ninguém está lá na Alemanha para defender o Brasil. Estão em busca de seus próprios interesses e de seus patrocinadores. E o pior, que como vc escreveu, todos esquecem da realidade que realmente interessa, para viver na fantasia! Odeio a Copa, e o pior é que eu vou ter que aguentar a TV ligada até no serviço...
Abraços

Érika Bento Gonçalves disse...

É, Aline, nesta nossa área, a gente tem que - além de aguentar a Tv ligada no trabalho - ainda fazer matérias sobre o assunto! Haja estômago!!!
Obrigada pela sua participação!!! :)

Érika Bento Gonçalves disse...
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Júnia Turra disse...

Concordo em gênero, número e grau! E ainda que a minha conversa n~ao tenha sido na cozinha, ante aos mesmos argumentos, sou eu a que n~ao ama o país e que torce sempre pelos outros. Eu quero sim, que me desculpem os demais, ver o Brasil ser atropelado pela Argentina, pela Itália ou por Portugal. Aliás, pouco importa por quem. N~ao gosto desta superioridade que é a mesma dos companheiros que ocupam o Plantalto Central: "somos os melhores, sabemos como driblar o povo, a Justica, como manipular a opini~ao pública, como humilhar os demais. Somos o máximo!". No mínimo, no Esporte, isto vai de encontro ao espírito de competitividade sadia e de respeito ao adversário. Na Política, é falta de ética e crime. Na dúvida, prefiro que Ronaldinho continue encantando nos gramados do mundo e colocando o nome do Brasil em evidência, mas espero que Robertos Carlos da vida, encerrem suas carreiras, pela falta de ética e pelo jogo sujo. Assim, que ganhe a democracia e que saiam de cena e caiam de quatro os políticos corruptos e quadrilheiros safados. Se o técnico for Kirscher, Lula, ou Merckel, o segundo está desempregado: leva cart~ao vermelho de cara. Fora !!!